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sábado, 26 de abril de 2008

A Seringueira do meu Quintal

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O quintal da minha casa (dos meus pais) era um lugar realmente mágico pra nós, crianças. Era grande e tinha de tudo: árvores grandes e pequenas, canteirinho de gerânios vermelhos e cerquinha branca, piscina, pomar, uma rampa grande gramada, flores, samambaias, avencas, três grandes acabateiros, cachorro, uma quadra de cimento, um ranchinho onde fazíamos churrasco ou brincávamos, e muito mais.

Quando criança temos uma perspectiva diferente de quando somos adultos. Hoje eu vou no quintal e vejo que tudo tem um tamanho diferente. Ainda é grande mas diferente, menor do que me lembro.

Eu era a caçula de cinco irmãos. A diferença entre eu e minha irmã era de quase cinco anos. Dela para os outros a diferença era bem menor, coisa de um ano, um ano e meio. Assim, eu era meio que uma temporã, achava que eu tinha "escapado", que não havia sido planejada. Mas minha mãe sempre me disse que, após um aborto espontâneo, decidiu ter cinco filhos, e eu sou a quinta.

Nessa época o quintal era muito, muito bonito. Com meus irmãos e eu ainda pequenos, sem gastos com faculdade ou baladas (que na época não se chamava balada, claro), meus pais podiam manter o lugar super bem cuidado. Como o terreno é um declive, ou seja, a casa mais acima e o quintal vai descendo, se fosse visto de lado, seria como se fossem degraus, cada parte do quintal num nível, até chegar lá embaixo, na rua de baixo.

Num dos 'degraus' tinha um jardim bonito, todo ornamentado com folhagens junto ao muro e num canto, lá estava ela, grande e majestosa, a seringueira.

Seringueira é o nome vulgar de uma planta do gênero Hevea, família
Euphorbiaceae, que foi introduzida na Bahia por volta de 1906. (...) mostrando grande adaptabilidade aos mais variados ambientes. (...) mais explorada economicamente,
por produzir látex de melhor qualidade e com elevado teor de borracha.
Do seu tronco extrai-se o látex que, por coagulação espontânea ou por processos químico-industriais, se transforma no produto comercial denominado de borracha. Espécie nativa da região amazônica pode atingir até 40 m de altura.

Bem, a nossa não tinha 40 metros de altura mas ostentava uns belos 8 ou 10 metros. Mas seu forte não era a altura mas sim o tamanho da copa, o tamanho dos galhos (troncos) e a forma como eles nos permitiam grandes escaladas. A base do tronco era larga, acho que tinha mais de um metro de circunferência (mas como já disse antes, quando criança, temos uma dimensão diferente das coisas, posso estar enganada quanto a isso).
Nem faz assim tanto tempo... mas era tão diferente. Não ficávamos grudados na tv. Computador, nem existia. A criançada ficava mesmo é brincando. E quando digo criançada incluo a meninada adolescente que se divertia muito sem ter essa gana de crescer rápido demais. Naquela época, crianças podiam ser crianças e os adolescentes não eram um "protótipo de adulto", eram apenas crianças crescidas.
Subíamos em cada galho daquela árvore e só isso já era uma diversão. À medida em que alcançávamos um galho mais alto do que antes conseguíramos, era uma vitória. E lá ficávamos, conversando, chupando uma laranja, fazendo brincadeiras. Claro que não faltava um balanço, com galhos tão grossos e uma copa fronsosa para nos dar sombra. Era realmente mágico!
A seringueira tem folhas grandes de mais de um palmo (de um adulto) de comprimento por meio palmo de largura, bem verdes e meio brilhantes. Se arrancadas do galho, soltam um líquido branco, leitoso, que nada mais é que o látex usado para se fazer a borracha. Me lembro que quando descobri a maneira que se extraía o látex das seringueiras, fiquei muito impressionada e com pena na árvore. Imaginava ela sendo deixada sangrando por horas e horas, até que não houvesse mais líquido algum. Não sei se todo mundo já viu fotos de seringueiras, com um corte em forma de V no tronco e com uma 'cumbuca' em baixo, amarrada, recolhendo o leite que escorre. Para uma criança que gostava tanto de uma árvore, imaginá-la nessa situação era muito ruim, uma violência.
Mas, como nem toda a beleza pode evitar problemas, aconteceu com ela também. Suas folhas caíam o tempo todo e mais ainda em determinadas épocas do ano (acho que no outono). Sua copa invadia o quintal de dois vizinhos que começaram a reclamar. Além disso, a raiz começou a dar rachaduras no chão do nosso quintal. Era uma árvore grande, com uma copa grande, quase sem poda, crescendo livremente para o lado que quisesse. Sua raiz era muito grande e começou a avançar pelo terreno causando problemas ainda maiores pelo terreno ser um declive; começou a desbarrancar em alguns lugares.
Nada pudemos fazer. Um belo dia ela se foi. Nossa seringueira foi cortada, serrada, amputada. E nós só pudemos assistir e chorar sobre o toco que sobrou. Sobraram também as memórias, tão boas, as que conto para meus filhos com tanto orgulho. Eles, por sua vez, tiveram o Jasmim-do-Cabo, uma árvore que enche de flores tão lindas, os jasmins-do-cabo. Embora menor, embalou meus filhos e meus sobrinhos por vários anos e cumpriu sua missão.
Amo as árvores, muito mais do que as flores. Sempre digo que tenho uma relação especial com as árvores, sinto vontade de abracá-las. Talvez a minha seringueira seja, em grande parte, responsável por isso. Me ensinou a respeitar os anos, as lembranças, as memórias, as histórias e as flores que elas carregam.

2 comentários:

David disse...

estamos todos nostalgicos ultimamente? Será o outono, fessôra?

Cintia disse...

Ah, David... mas é uma nostalgia tão boa!