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domingo, 4 de maio de 2008

A verdadeira história da estória

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Um dia desses alguém me perguntou sobre o uso da palavra estória. A pergunta era sobre uma frase em que estava escrito "mas isso é outra história" e essa pessoa queria saber se deveria usar o termo estória, já que não se tratava de algo "histórico".

Segundo o dicionário Michaellis:
es.tó.rias. f. História. (Apesar de alguns fazerem distinção
entre estória e história, recomenda-se apenas a última grafia, tanto no sentido
de ciência histórica, quanto no de narrativa de ficção, conto popular, e demais
acepções).
Na ocasião eu apenas disse que não, que história estava certo e que 'estória' nãao era mais usada. Não me aprofundei na verdadeira concepção do termo, e fiz muito bem. Na verdade, sou do tempo em que aprendíamos que o termo estória era para identificar uma "estorinha" (sic), como as da carochinha. Já o termo história era para designar o desenrolar da vida de um povo ou de acontecimentos importantes.

Hoje resolvi pesquisar a respeito. Ai, ai, é difícil você perceber que passou anos pensando que algo era algo, e não era. Bem, devo reconhecer que eu não sabia (como a grande maioria das pessoas) que o termo 'estória' traz em si uma explicação muito maior do que informam os dicionários.

Segundo o Professor Pasquale Cipro Neto:
O caso de "história" e "estória" é uma das tantas maluquices da língua. O Aurélio registra "estória", mas diz que não se recomenda o uso. O Vocabulário Ortográfico Oficial também registra, mas, na prática, pouca gente tem coragem de usar. O melhor conselho parece ser o seguinte: use sempre história. ninguém poderá dizer que você está errado.
No site Nossa Língua Nossa Pátria há a explicação um pouco mais completa:
As palavras "estória" e "história" são aceitas por diversos autores, com significados distintos: - estória: exposição romanceada de fatos imaginários, narrativas, contos, fábulas; - história: para dados históricos, que se baseiam em documentos ou testemunhos. Estas duas palavras constam do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Mas o Novo Dicionário Aurélio da língua Portuguesa recomenda simplesmente a grafia história, nos dois sentidos. E o dicionário de Caldas Aulete refere-se à forma estória como um brasileirismo, isto é, apenas um aportuguesamento da forma inglesa "story".
Esse 'brasileirismo' acaba sendo realmente desvendado pelo professor Cláudio Moreno no site Sua Língua, onde ele afirma:
Foi João Ribeiro, forte conhecedor de nosso idioma, quem propôs a adoção do termo estória, em 1919, para designar, no campo do Folclore, a narrativa popular, o conto tradicional. (...) Era uma ingênua proposta, paroquial, nascida da inveja compreensível que causa a distinção story - history do Inglês.
Ainda temos a opinião do português José Neves Henriques no site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, onde diz que:
Não são sinónimos. É a mesma palavra com dupla grafia, e derivada do latim «historia(m)». No português medieval, escrevia-se historia, estoria, istoria, assim como homem, omé, omee (com til no 1.º e), ome. Compreende-se, porque a ortografia ainda não estava fixada. (...) É uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história. O contexto e a situação têm sido mais que suficientes para distinguirmos os vários significados. A estória só vem confundir as pessoas.Seria ridículo começarmos, por exemplo, a empregar homem para indicar o ser humano em geral, isto é, a espécie humana, a humanidade; e omem, para designar qualquer ser humano do sexo masculino(...)
Assim, creio que, (para quem estiver interessado, claro) trago aqui uma dica importante e muito útil: esqueçam a grafia 'estória', deixe-a no passado e divirta-se com histórias (da carochinha) ou com a história (do Brasil e do mundo). Afinal, se eu disser que vou contar "uma história" todo mundo vai entender que não estou falando de fatos. Aqui, devo fazer uma observação importante (ao meu ver):

Os fatos não existem; existem apenas interpretações” dizia Nietsche.

Os fatos são fátuos” dizia Max.
(onde fátuo significa "insensato, passageiro, fugaz")

Vou mais longe então. Os fatos não existem por si só, o que existem são histórias contadas por alguém, relatos de pessoas que talvez tivessem estado lá, durante o tal fato. O que existe é um amontoado de palavras dispostas por alguém que resolveu contar algo à sua maneira, com ou sem parcialidade, com ou sem verdade. Nesse registro do passado, sempre haverá a opinião de quem escreveu, mesmo que nas entrelinhas, mas haverá a sua visão do fato. Assim, toda a história poderia ser chamada de estória, já que não sabemos, e nunca saberemos, até onde vai a verdade do que está sendo contado - isso, é claro, se não tivéssemos chegado à conclusão de que o termo estória nem sequer deveria existir.
E é isso!

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom seu texto!
Me enriqueceu...

Trocando idéias:

"os fatos não existem..."
Sim, bravo, mas digo:
-Os "Fatos" existiram, mas eu não posso contar a vós, não mais fatos seriam.

Abraço

Sarmento, RJ.

Bruno A. de Ramos disse...

Alguém conta algo. Outro replica: - Estória.
Alguém conta algo. Outro replica: - Isso é estória pra boi dormir.
Meu filho me pede: - Pai, me conta uma estorinha pr'eu dormir?
Um professor diz: - As estórias de Harry Potter impressionam, mas não passam de estórias.

Os argumentos contrários são fortes, mas ainda fico com estória e história.

Vanda Maria Mendonça disse...

História é uma só... precisamos nos render aos fatos, ou correremos o risco de "abrasileirar" o desnecessário...

Raquel Rocha disse...

Esta versão está certa e coloquei um link para o meu blog, realmente a culpa é de Guimarães Rosa

http://historiasdasementinha.blogspot.com.br/p/historia-x-estoria.html